O início do ano é um momento precioso na escola, em que tudo é novo e difícil para crianças, pais e professores. Uma nova turma de crianças faz a sua estréia na escola. É tempo de adaptação. Mas, com paciência e carinho, as relações vão se construindo... Hoje em dia, a maioria das crianças começa bem cedo na creche e frenquenta inclusive a colônia de férias, nem lembrando do seu primeiro dia na escola, porém, mesmo para estas, a ida para uma nova escola ou para a mesma é um momento especial.
Neste período chamado de adaptação, crianças (e também seus responsáveis) estão se acostumando à escola. Cada escola tem suas próprias crenças e métodos. Algumas acham desnecessário dar um tempo para esse "acostumar-se", mas a maioria, especialmente, as que trabalham com crianças pequenas, planejam um período de adaptação, cuja duração e características variam, e os horários podem ou não ser mais flexíveis. Adaptação é isso. Algo, que tem a ver com crianças pequenas, maiores, adolescentes, início do ano e escolas novas. Ao entrar para a escola, a criança trava conhecimento com um novo espaço que é físico e também subjetivo e afetivo.
“Crianças, pais, mães e professores precisarão de tempo para descobrir que as escolas são diferentes; tempo para descobrir no novo ambiente algo que a interesse, que a encante, e tempo para se deixar encantar”. Maria José de Serra:
Há crianças que chegam animadas e vão logo perguntando: "Onde é minha sala?" Isso quando não entram, despachadamente, na primeira porta que encontram e tratam de explorar o novo ambiente sem a menor cerimônia. Sentem-se à vontade desde o momento em que chegam.
Há as que chegam devagar, trazendo na mão algum brinquedo ou objeto. Olham tudo com atenção, aproximam-se devagar. Vão até a porta da sala, mas se recusam a entrar. Ficam olhando da porta o que acontece lá dentro. Aos poucos acabam entrando. Há também as que chegam assustadas, não soltam as mãos que as trouxeram e sequer olham para a professora ou quem quer que se aproxime.
Dentre todas as imagens que me vêm à mente, quando penso em adaptação, uma me parece particularmente rica de significados. É a de crianças paradas no meio do caminho que leva à sala, seja no corredor, ou entre os dois lances de escada ou na rampa que, no colégio onde trabalho leva às salas que ficam no primeiro andar. Param indecisas sem saber se voltam para a mãe, o pai, a babá ou a avó que acena (ou acaba de desaparecer), ou se seguem ao encontro da professora que as aguarda na sala. Às vezes olham para trás, para os lados... Imagino que tudo deva parecer enorme e vazio!
- entre a segurança do já conhecido e as possibilidades do novo.
É interessante observar como as crianças chegam. É igualmente interessante observar como são trazidas. Ao receber uma criança, uma escola recebe uma família. Com isso, gostaria de chamar atenção para o fato de que o período de adaptação é também uma necessidade para os pais que levam seus filhos/filhas para a escola. Muitas vezes, o adulto está inseguro seja quanto à capacidade do filho/filha (ou da sua própria) de enfrentá-las, de colocar em cheque a educação dos pequenos. Cada um traz sua história. Todos trazem expectativas. Como se, diante das reações da criança, sua competência como pais fosse julgada. Uma adaptação difícil é facilitada quando, em vez do adulto ansioso, que não consegue se sentir tranquilo, a criança venha acompanhada por outra pessoa que não esteja tão envolvida e que, portanto, possa transmitir segurança e tranquilidade.
Para os pais, a adaptação faz parte do processo de construção de um vínculo de confiança com a escola. Às vezes, confiar leva tempo. Somente aos poucos, no desenrolar do ano, das relações, é possível ir conhecendo e avaliando a escolha feita. São muitos os aspectos envolvidos na escolha de uma escola. Sejam quais forem as razões que nortearam a escolha, e por mais cuidadosa que esta tenha sido, isso não garante que tudo corra bem, não significa que a escola corresponda ao que era esperado e que seja boa para aquela criança específica.
É preciso lidar com isso também. E, como em todas as situações, de preferência sem julgamentos, sem preconceitos, procurando garantir o espaço para as diferenças. Talvez ajude, se pensarmos que este é apenas um primeiro momento. Se for preciso, outros serão criados depois para trocar observações, sugestões, para ouvir, para contar, para entender...
E o professor?Para ele a adaptação é um momento delicado e cansativo Como dar o tipo de atenção que cada um requer? Que fazer com aquele pai que monopoliza a atenção, falando do filho o tempo todo? Administrar a situação com calma...
A escola precisa lidar com isso também Às vezes há outras adaptações a fazer como, por exemplo, ao seu par de trabalho, pois é comum o professor de crianças pequenas trabalharem com um professor auxiliar. Se mudar de turma, o professor terá que se adaptar à faixa etária do seu novo grupo e, nessa fase, um ano faz bastante diferença.
Adaptação é tudo isso: conquista conhecimento, paciência, insegurança, crescimento, confiança... São tantas outras coisas! Um processo feito de outros processos individuais. Envolve gente, envolve tempo, envolve sentimento (às vezes contraditórios).
E, voltando à imagem da escada e da rampa da qual falei anteriormente, o melhor da história é ver como em pouco tempo - pouquíssimo - o subir penoso é substituído por um saltitar alegre e descontraído, acompanhado de risos e de uma tagarelice sem fim.
Márcia Perucchi
Direção – Centro de Educação Infantil AFASC Lapagesse
Desenvolvimento Burn web.studio